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Acolher não é tomar partido: o perigo de ouvir apenas um lado da história
07 de outubro de 2026 · 4 min de leitura · Andreia Souza

Acolher não é tomar partido
Quando alguém chega até nós machucado e começa a contar tudo o que outra pessoa fez, é natural sentirmos compaixão. Ouvimos a dor, percebemos a indignação e, muitas vezes, sem perceber, começamos a construir uma imagem daquela situação a partir de uma única versão.
A pessoa que está diante de nós passa a ocupar o lugar de vítima. E aquela que não está presente para contar o que viveu passa a ocupar o lugar de vilã.
Mas existe uma pergunta importante que precisamos aprender a fazer:
Se eu ouvisse o outro lado dessa história, continuaria enxergando tudo exatamente da mesma maneira?
Essa pergunta não significa desconfiar da dor de quem está falando. Significa reconhecer que estamos ouvindo uma experiência contada a partir da percepção, das emoções e das lembranças daquela pessoa.
Acolher alguém é diferente de concordar com tudo
Existe uma grande diferença entre acolher uma dor e tomar partido de uma história.
Podemos ouvir alguém dizer que está sofrendo e responder:
“Eu entendo que isso machucou você.”
Isso é acolhimento.
Outra coisa é concluir imediatamente:
“Então você está certa e a outra pessoa está errada.”
Isso já é um julgamento.
E quando conhecemos apenas uma versão dos acontecimentos, podemos não ter elementos suficientes para chegar a essa conclusão.
É possível acolher alguém profundamente sem transformar a pessoa que ela acusa em nossa inimiga.
O perigo de carregar uma raiva que nem nasceu em você
Quando tomamos partido sem conhecer toda a situação, podemos começar a sentir raiva de alguém que nunca fez nada contra nós.
Passamos a olhar aquela pessoa pelos olhos de quem nos contou a história. Em alguns casos, começamos até a falar mal dela, julgá-la ou nos afastar dela sem nunca termos conversado diretamente com ela.
Perceba o que aconteceu: uma dor que não era nossa passou a ocupar espaço dentro de nós.
E existe algo ainda mais delicado.
A mesma pessoa que hoje conta para você tudo o que alguém supostamente fez contra ela poderá, amanhã, contar para outras pessoas uma história sobre você.
E, nessa nova versão, talvez seja você quem ocupe o lugar de vilã.
Por isso, precisamos desenvolver sabedoria emocional para ouvir sem absorver imediatamente tudo o que nos é contado como uma verdade absoluta.
Nem toda história precisa de um juiz
Quando alguém desabafa conosco, nem sempre está pedindo que decidamos quem está certo ou errado.
Muitas vezes, essa pessoa simplesmente precisa ser ouvida.
Você pode oferecer acolhimento, uma palavra de ânimo, aconselhar com prudência e até ajudar aquela pessoa a refletir sobre o que está vivendo.
Mas você não precisa assumir a responsabilidade de condenar quem não está presente.
Escute, mas não alimente ódio.
Acolha, mas não condene.
Ajude, mas não participe de julgamentos precipitados.
Se você tiver oportunidade de conhecer os dois lados, ouça antes de formar uma conclusão.
Se não tiver, tenha humildade para reconhecer:
“Eu conheço apenas uma versão dessa história.”
Proteja também o seu coração
A Bíblia nos ensina em Provérbios 18:17:
“O primeiro a apresentar a sua causa parece ter razão, até que outro venha à frente e o questione.”
Existe muita sabedoria nesse princípio.
Nem sempre temos acesso a tudo o que aconteceu. Existem conversas que não ouvimos, atitudes que não presenciamos, contextos que desconhecemos e sentimentos que pertencem somente às pessoas envolvidas.
Por isso, não precisamos transformar o inimigo de alguém em nosso inimigo também.
Quando não for possível compreender toda a situação, ore e entregue a Deus aquilo que você não consegue enxergar.
Ele conhece os corações, as intenções, aquilo que foi dito, aquilo que foi omitido e aquilo que cada pessoa realmente viveu.
Minha amada Rosa, aprenda a ouvir sem escolher imediatamente um lado
Ser uma pessoa acolhedora não significa acreditar cegamente em tudo o que ouvimos.
Você pode ser um lugar seguro para alguém desabafar e, ainda assim, preservar a sua própria consciência.
Pode amar quem está sofrendo sem odiar quem foi apontado como responsável pelo sofrimento.
Pode aconselhar sem condenar.
Pode ouvir sem espalhar.
Pode acolher sem tomar partido.
Porque acolher uma dor não exige escolher um lado.
Existem momentos em que a atitude mais sábia é simplesmente:
ouvir, acolher, orar e esperar.
— Casulo Rosa
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