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O luto também é um casulo

04 de setembro de 2026 · 5 min de leitura · Andreia Souza

Mulher em um momento de recolhimento e reflexão junto à janela, representando o processo de luto, transformação e reconstrução interior.

O luto também é um casulo

O luto é uma transformação.

Quando perdemos alguém, um lugar, uma relação ou uma realidade que fazia parte de nós, não precisamos aprender apenas a conviver com a ausência. Precisamos, de alguma maneira, descobrir quem somos depois daquela ausência.

Nós somos profundamente influenciados pelas pessoas com quem convivemos. Construímos hábitos, sonhos, rotinas, crenças e até maneiras de enxergar a vida a partir daqueles que estão ao nosso redor — principalmente daqueles que amamos, valorizamos e com quem compartilhamos partes importantes da nossa história.

Por isso, quando alguém vai embora, alguma coisa dentro de nós também precisa se reorganizar.

É como se uma peça do quebra-cabeça que ajudava a formar a nossa antiga versão já não estivesse mais ali.

E então precisamos reorganizar pensamentos, sentimentos, emoções, planos e até a direção da nossa vida.

Precisamos descobrir o que ainda faz sentido.

Precisamos descobrir como continuar.

E, talvez uma das perguntas mais dolorosas do luto seja:

Quem sou eu agora que essa pessoa não está mais aqui?

Eu vivi isso quando perdi minha irmã.

Durante algum tempo, eu me recusava a seguir em frente.

Eu não queria continuar sem ela.

Porque, no fundo, eu sabia que continuar significava aceitar uma realidade que eu não queria aceitar: a minha caminhada seguiria, mas ela não estaria mais nela da maneira como sempre esteve.

E isso doía profundamente.

Talvez uma das maiores dores não fosse apenas olhar para trás e perceber tudo o que eu havia perdido. Era olhar para frente e imaginar tudo aquilo que eu ainda viveria sem ela.

O futuro também doía.

Porque continuar significava aprender a viver uma vida diferente daquela que eu havia imaginado.

Com o tempo, porém, fui percebendo que a dor começava a ocupar outro lugar dentro de mim.

Não porque ela tivesse deixado de ser importante.

Não porque eu tivesse esquecido.

E muito menos porque aquela perda tivesse deixado de doer.

Mas porque uma nova realidade começou, lentamente, a ser construída ao redor daquela ausência.

E, enquanto essa nova realidade surgia, uma nova versão de mim também surgia.

Eu não sou mais a mesma pessoa que era antes de perder minha irmã.

Algumas crenças que eu tinha foram quebradas. Algumas certezas deixaram de existir. Passei a enxergar a vida, as pessoas, Deus, o tempo e até a mim mesma de maneiras diferentes.

Eu precisei me reinventar.

Precisei compreender que algumas coisas não aconteceriam como eu imaginava, como eu acreditava ou como eu gostaria que acontecessem.

E isso me transformou.

Talvez seja por isso que hoje eu consiga olhar para o luto e pensar nele como um casulo.

Existe um período em que parece que entramos para dentro de nós mesmas.

Há silêncio.

Há ausência.

Há perguntas.

Há saudade.

Há dias em que parece que a vida inteira está acontecendo lá fora enquanto alguma coisa dentro de nós ainda tenta compreender o que aconteceu.

Mas, dentro desse casulo, uma transformação também pode estar acontecendo.

E não estou falando apenas sobre a morte.

Existem muitos tipos de luto.

Existe o luto de um divórcio.

O luto de uma amizade que terminou.

O luto de alguém que foi embora.

O luto de sair de um trabalho onde construímos parte da nossa identidade.

O luto de deixar uma igreja, um grupo, uma escola, uma faculdade ou uma cidade.

Existe até o luto de uma versão de nós mesmas que já não cabe na realidade que estamos vivendo.

Dependendo do quanto nos entregamos, do quanto pertencemos e do quanto aquela pessoa, aquele lugar ou aquela realidade participou da construção de quem éramos, a ruptura pode ser profundamente dolorosa.

Porque não estamos nos despedindo apenas de algo externo.

Estamos nos despedindo também da pessoa que éramos naquela realidade.

E talvez essa seja uma das partes mais difíceis de compreender sobre o luto.

Luto também é descobrir:

Quem sou eu sem essa pessoa?

Quem sou eu sem esse relacionamento?

Quem sou eu sem aquele lugar?

Quem sou eu agora que a vida mudou?

Por isso, gosto de pensar que o luto também pode ser um casulo.

Não porque toda perda tenha que ser bonita.

Não porque toda dor precise ser romantizada.

E não porque precisamos agradecer por aquilo que nos feriu.

Mas porque, mesmo diante de algo que jamais escolheríamos viver, ainda podemos ser transformadas.

O casulo é um lugar de transição.

A lagarta entra nele de uma forma e não sai da mesma maneira.

E talvez existam momentos da nossa vida em que também seja assim.

Entramos carregando uma versão de nós mesmas que já não poderá continuar exatamente como antes.

E, aos poucos, precisamos descobrir quem seremos agora.

Talvez você esteja vivendo esse processo neste momento.

Talvez alguma coisa tenha terminado e você ainda esteja tentando entender como continuar.

Não tenha pressa para descobrir imediatamente quem você precisa ser.

Há transformações que acontecem no silêncio.

Há respostas que só aparecem enquanto caminhamos.

E há versões nossas que só conhecemos depois que a vida nos obriga a atravessar lugares que jamais escolheríamos.

O luto é descobrir quem somos depois que aquilo que fazia parte de nós já não está mais da mesma forma.

É despedida.

É reorganização.

É reconstrução.

É transformação.

É casulo.

E talvez, um dia, quando você olhar para trás, perceba que não saiu dessa experiência sendo quem era antes.

Você carregará saudades. Carregará memórias. Algumas ausências continuarão existindo.

Mas poderá descobrir também forças, profundidades e partes de si que antes você ainda não conhecia.

Porque o casulo não apaga aquilo que existiu.

Ele transforma aquilo que continua.

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